sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

MADAME KARDEC, A HISTÓRIA QUE O TEMPO QUASE APAGOU - ENTREVISTA COM ADRIANO CALSONE


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Amélie Boudet

Publicado no Correio Fraterno - Edição 472  novembro/dezembro 2016
Por Eliana Haddad e Izabel Vitusso

O pesquisador Adriano Calsone mergulhou na história de Kardec e Amélie Boudet na França do século 19. Pesquisou a história do espiritismo pós-Kardec e lançou em 2015 o livro Em nome de Kardec. Ampliando suas pesquisas, resgata agora a grande personalidade que foi Amélie Boudet, em Madame Kardec (Vivaluz).
Calsone relata a grandeza do trabalho de Amélie e como ela foi à luta para preservar a originalidade das obras fundamentais do espiritismo.

Por que você resolveu pesquisar a vida de Amélie Boudet?
Trabalho com pintura mediúnica há mais de uma década. Sempre ouvi falar que ela foi artista e tinha alguns livros sobre belas artes, poesias, contos. Daí, pensei: "Não é possível que os espíritas não tenham mais dados biográficos sobre essa mulher!" O que temos de registros brasileiros sobre ela, desde o início do século 20, são dados pífios, replicados. Encontrei muita dificuldade de localizar novas informações. Repensei: "O caminho é a França e a Revista Espírita, a partir de 1869".

Como você conseguiu resgatar esses dados?
Por obras espíritas e não espíritas, pela internet, por meio da Biblioteca Nacional da França, e tenho também um amigo francês espírita que muito me ajudou nas pesquisas. Ao contrário do que imaginávamos, existiam muitas menções sobre as contribuições de Amélie no meio espírita francês da época. Depois da morte de Kardec, ela continuou a Revista Espírita com Pierre-Gaëtan Leymarie. Ele, mais intensamente, mas ela também permaneceu ativa, trabalhando com discrição nos bastidores, até desencarnar em janeiro de 1883. Como foi morar na Villa Ségur, ficava reservada e longe do escritório da Revista, mas elegeu Leymarie como mandatário para representá-la na livraria espírita e na Revista. E aí vem a grande questão: Ele não era só espírita... Acreditava, incentivava e financiava outras crenças místicas como o roustainguismo, a teosofia, a pneumatologia universal, que se tratava de mais uma doutrina secreta.

 O livro conta todas essas passagens?
Sim. Ele (Leymarie) estava passando por dificuldades financeiras por causa da Comuna de Paris. Tinha filhos pequenos e pais doentes, e foi pedir ajuda à Amélie, que socorreu toda a família, inclusive cedendo-lhes morada gratuita em uma de suas casas de aluguel. Amélie, aliás, não era filha única, como dizem. Quando seu pai morreu, herdou uma extensa lista de patrimônios junto ao irmão. Uma matéria que saiu num jornal jurídico, na década de 1830, explica um calote que Rivail tomou em função de um empréstimo que fez para Julien François Boudet, irmão de Amélie.

O que você descobriu de mais interessante?
O que me chocou bastante foi a questão do assédio moral que Amélie sofreu depois da morte do marido. Há depoimentos da época publicados no formato de denúncias veladas, feitas por espíritas que conviviam no círculo parisiense do escritório da Revista Espírita. Havia grande resistência do grupo dos espíritas sincretistas, em torno de Leymarie, em aceitar suas opiniões por ela ser mulher, empreendedora, artista e também uma espírita já de idade.

Mas ninguém a defendia?
Em 1884, um ano depois da morte dela, uma amiga do casal chamada Berthe Fropo deixou um documento publicado, um verdadeiro desabafo, uma brochura, Beacoup de Lumiére (Muita Luz) .Impressionou-me, também, o fato de Amélie ter deixado muitas realizações espíritas. Fundou a respeitável Sociedade Anônima e, anos mais tarde, inaugurou outra Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec. Pode-se afirmar, sem receios, que ela foi pioneira na organização e valorização do que hoje conhecemos por Comunicação Social Espírita. Era muito inteligente, lúcida e ativa.

O que fez Amélie tão logo Kardec desencarnou?
Já no primeiro semestre de 1869, colocou em prática a Constituição Transitória do Espiritismo, sugerida por Kardec como medida expressa, principalmente para derrubar qualquer ideia de um "chefe do espiritismo". Ela tinha uma visão inovadora das Sociedades que fundou, administrava mais de 30 imóveis próprios, herdados do pai, não só em Paris. Percebeu também que os livros espíritas do marido podiam ser muito mais acessíveis, baratos. Há passagens na Revista Espírita que demostram que ela viveu muitas situações de privação, repensando os rumos do trabalho deixado por Kardec, preservando com grande cuidado a literatura espírita nascente.

Em sua análise, por que o espiritismo não conseguiu ter a continuidade como Kardec queria, através da Amélie?
Em 1868, Kardec já vinha pressentindo vários cismas entre os fundadores da Sociedade. Ele queria prezar os ensinamentos espíritas pela exemplificação da moral, mas muitos acreditavam que o caminho deveria ser o fenomenológico, defendendo que a Sociedade deveria ser aberta não apenas para os societários, mas para que outras pessoas pudessem frequentá-la à constatação das experiências de efeitos físicos. Kardec não concordava com isso e chegou a pedir o seu afastamento da presidência, inclusive, por sondar os rumos sincréticos que a linha editorial da Revista Espírita poderia tomar. E foi o que, infelizmente, acabou acontecendo, após sua morte. A viúva fez de tudo para evitar essa incorporação obscura, orquestrada pelos próprios "amigos espíritas" do casal, de um espiritismo esotérico na França. Uma das provas desse desdém está numa declaração de 1884: "Eu parei de ir às reuniões do Comitê de leitura da Revista Espírita porque os senhores Leymarie e Vautier não tinham respeito por mim. Sempre que eu queria colocar as minhas opiniões, eles me faziam dura oposição, por isso eu tive que me retirar."

Por que Amélie permitiu na época que isso acontecesse?
Distante, ela confiou muito em Leymarie e, quando Berthe Fropo percebeu que a Doutrina estava em perigo, a Sociedade já perdia seus rumos espíritas. Madame Fropo veio do círculo dos Kardec, conheceu o codificador e sabia muito bem da existência de ações corruptíveis que ocorriam nos bastidores do espiritismo francês. Ela documenta que Amélie não queria destruir a própria Sociedade que ela ajudou a fundar com o marido. Décadas depois, a espírita Sociedade Anônima virou a sincrética Sociedade Científica do Espiritismo. Amélie muito se entristeceu com isso, ficou recuada, doente e acabrunhada, mas a amiga Berthe sempre a incentivava a não desistir da coerência doutrinária. Inclusive, aconteceram muitas reuniões na Villa Ségur, conforme narrado na brochura Beacoup de lumiére, nas quais o suposto espírito Kardec se comunicava para dar-lhe orientações. Ela era muito discreta e tomou atitudes importantes contra o sincretismo na Doutrina, incentivando, por exemplo, a fundação da União Espírita Francesa (1882) e participando das refutações ao lado da família Delanne.

Como era a relação de Amélie com a família Delane?
Foi ela quem chamou às pressas Gabriel Delanne e sua esposa, quando as mensagens do suposto espírito Allan Kardec começaram a chegar, alertando-os que, se nada de emergencial fosse feito, a Doutrina seria engolida por um misticismo praticado pelos "espíritas da primeira hora". Foi assim que juntamente com Madame Fropo e a família Delanne fundou a União Espírita Francesa. Delanne inaugurou o periódico Le spiritisme (O espiritismo), como meio de divulgação dos ideais espíritas de Kardec, bem como para as refutações da Revista Espírita que, no início da década de 1880, já estava totalmente fora do seu propósito espírita inicial, veiculando artigos da Teosofia de Blavatsky, d'Os quatro evangelhos de Roustaing, da Sociedade da Pneumatologia Universal, etc.

Qual o destino do material conservado por Amélie?
Em 1871, ela promoveu uma organização em sua casa, selecionando textos, extratos, manuscritos, cartas de Kardec, etc. Reuniu-se com o pessoal da Sociedade Anônima e pediu a Leymarie que os guardasse. Ele resguardou os originais kardecianos, publicando-os na Revista Espírita, como notas e artigos, até 1874. Por fim, em 1890, ele publicou parte do volumoso material na coletânea Obras Póstumas. Bom lembrar que na semana que Amélie morreu (janeiro de 1883), os senhores Leymarie e Valtier, esse último diretor da Revista, promoveram uma "seleção" daquilo que consideravam interessante deixar para a história do espiritismo. Romperam os lacres da casa da falecida viúva e separaram o joio do trigo, apagando Amélie da historiografia espírita. Segundo Berthe Fropo "não houve nem inventário, nem escritura pública, salvo as coisas fora de serviço que eles venderam aos sucateiros. (...)Mas o que me fez tremer de indignação foi assistir a um verdadeiro auto-de-fé. O senhor Vautier caminhava no jardim entre pilhas de papéis e cartas. Quantas comunicações interessantes, quantas anotações deixadas pelo mestre. Tudo foi destruído".

Você descobriu algo mais pontual sobre a influência que teve Amélie na vinda do espiritismo?
Ela financiou a primeira edição d'O livro dos espíritos (1857) e o primeiro fascículo da Revista Espírita (1858) com sua renda de professora e das casas alugadas. Mas o seu maior legado talvez seja a vigilância e o cuidado que teve na preservação das obras espíritas, além de muito zelar pela memória de Allan Kardec. Foi dela também a iniciativa de se criar o monumento druida no cemitério Père-Lachaise, onde os despojos mortais de Kardec foram enterrados. Outra descoberta interessante foi a de que Amélie permaneceu de luto pelo menos até 1874. De seus dois retratos existentes nos Anais do Espiritismo, notam-se seus típicos trajes de luto. Mas, ao contrário de uma postura de recrudescimento, enfrentou a dor e foi à luta.

Que lição fica para o movimento espírita hoje, da atuação da Amélie?
Primeiro que ela, em nenhum momento, deixou de cuidar do legado espírita do marido. Autorizou os seus assistentes da Sociedade Anônima a ir às tipografias insalubres para resgatar os clichês das obras fundamentais – que estavam quase se perdendo, seja por desgaste natural, seja por descuido mesmo. Madame Fropo afirma que ela gastou em torno de 10 mil francos, uma pequena fortuna à época, para recuperar os clichês das cinco obras fundamentais.

Escrevendo o livro, sentiu alguma presença espiritual mais marcante?
Sim. Já vinha sentindo a intuição de resgatar esses fatos, inicialmente pelo viés artístico de Amélie. Depois, fui sentindo muito envolvimento espiritual com algumas coisas que escrevia, resultados das pesquisas realizadas. Senti muito a vibração espiritual delas, sempre ajudando, incentivando-me e trazendo forças para que eu continuasse o trabalho.

 Tudo o que você relatou nesse livro é verídico?
Sim. A obra não é literatura de ficção. Citamos todas as fontes primárias e secundárias pesquisadas, além da bibliografia. Interessante observar que o próprio Canuto Abreu teceu algumas curiosas passagens sobre Amélie e hoje sabemos da existência de cartas trocadas entre ela e Rivail. Ela morava com o pai na comuna de Thiais, a 19 quilômetros de Paris, numa mansão, para onde Kardec remetia suas cartas, uma delas com pedido de consentimento do casamento ao senhor Boudet, o pai de Amélie. (Leia em Baú de Memórias)

Como você analisa o espiritismo hoje, em função desse processo histórico que pesquisou?
Fiquei impressionado por constatar que toda a ruidosa história desse sincretismo espírita francês do século 19, de certa forma reaparece viva aqui no nosso espiritismo contemporâneo. Se tivermos a consciência coletiva de que a literatura espírita é o nosso maior legado, fácil será compreender que precisamos dar mais valor ao livro genuinamente espírita, ler primeiro as obras de Kardec, utilizar sempre o bom-senso e a fé raciocinada. Somos os atuais responsáveis por esse patrimônio. Vamos cuidar desse bem precioso, como bem fez Amélie!

ENDEREÇO ELETRÔNICO CONSULTADO:


MOVIMENTO ESPÍRITA PÓS KARDEC - EPISÓDIOS E DECLÍNIO DOUTRINÁRIO NA FRANÇA - POR JORGE HESSEN

Pierre-Gaëtan Leymarie
Fonte da imagem: https://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com.br/2017/02/movimentoespirita-pos-kardec-episodios.html


A propósito do declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, inicialmente entronizamos a figura de Ermance Dufaux, ela que conheceu Allan Kardec no dia 18 de abril de 1857, ao comparecer à pequena recepção festiva organizada pelo Codificador em sua residência, com a finalidade de comemorar o lançamento de O Livro dos Espíritos. No final dessa reunião, Dufaux psicografou bela página ditada pelo Espírito São Luís, que se tornaria, a partir de então, o diretor espiritual dos trabalhos experimentais de Allan Kardec.

No final de 1857, Dufaux receberia outra importante mensagem, estimulando o Codificador a prosseguir no ideal de lançar mensalmente um periódico espírita . Com efeito, no início de 1858, Kardec laçou a Revue Spirite, surgindo assim a matriz da propaganda da Terceira Revelação e o embrião do Movimento Espírita Mundial.

Na França, o nome de espíritas foi gradualmente abatido ao longo dos séculos XIX e XX. Concorreram para isso alguns fatos, como a desencarnação de Kardec em 1869, bem como a mudança de regime político, porquanto após a queda do Segundo Império, a República é proclamada em 1871.

Momentos antes, porém, em 19 de julho de 1870, cerca de quinze meses após a desencarnação de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia. Em face disso, a divulgação espírita sofreu enormes prejuízos, destacando-se que à época, como se não bastasse a fatídica guerra franco-prussiana, de maneira simultânea havia uma onda de pensamentos oriundos da Revolução Francesa, intensificando a ideia do laicismo, proibindo-se, portanto, qualquer relação entre as entidades estatais com “religião”.

Diante de outras “pistas”
Apontaremos algumas outras “pistas” para opinar sobre o  declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec. Em princípio, cremos que os legados históricos do Espiritismo sofreram as implicações danosas, por terem sido tratados como bens de família, estabelecendo espólios e, por conseguinte, sujeitando a herdeiros. Tudo sugere que Kardec pretendia evitar isso ao idealizar uma sociedade impessoal, mas não teve tempo. Faleceu antes de concretizar seus planos e, consequentemente tudo o que pertencia à Codificação Espírita (Sociedade parisiense de estudos espiritas, livros, revistas, correspondências, documentos etc.) tornaram-se herança da viúva Amélie Gabrielle Boudet.

De início, Boudet se propôs administrar o projeto do esposo; mas, inexplicavelmente, deliberou por confiar o legado nas mãos de Pierre-Gaëtan Leymarie, que organizou a (não espírita) Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, que depois se transformou na “Sociedade Científica do Espiritismo”. Mas Boudet sugeriu a criação da “Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec”. [1] Após a desencarnação de Amélie Boudet, em 1883, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos espólios e dos documentos de Kardec, na condição de único remanescente da tal sociedade. Uma parte, dos documentos originais do Codificador foi sendo publicada por Leymarie na “Revue Spirite”, e outra parte transformou na inquietante “Obras Póstumas”.

O declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, na minha percepção e de alguns outros pesquisadores, se deve precipuamente à imaturidade doutrinária de Pierre-Gaëtan Leymarie que teve o encargo, portanto, de cuidar da propagação do Espiritismo após a desencarnação do mestre de Lyon. Neste sentido, parece-nos que administrou “inocentemente” uma razoável quantidade financeira que lhe foi entregue por Amélie Gabrielle Boudet para o custeio da divulgação das obras espíritas.

Os expressivos recursos econômicos deveriam ser empregados na propaganda criteriosa do Espiritismo. Mas isso não foi claramente realizado. Motivo pelo qual, provavelmente em 1882, Gabrielle Boudet, inteiramente descontente, convidou à sua casa Gabriel  Delanne e esposa, a fim de propor a criação do periódico "Le Spiritisme", para que o Movimento Espírita não dependesse apenas da já agonizante “Revue Spirite" dirigida por Leymarie.

A liderança do Movimento Espírita poderia ter sido compartilhada entre Leymarie e Gabrielle Boudet, mas, a rigor, Boudet ficou historicamente em plano secundário, numa condição de humilhante subalternidade e gradualmente Leymarie foi afastando Amélie Gabrielle das decisões. [2]

Leymarie ,  protagonista para o desmoronamento doutrinário
Leymarie imergiu na invigilância, gerando o desfalecimento do Movimento Espírita já quase totalmente desintegrado. Cremos que a sucessão de Kardec deveria caber a Alexandre Delanne, até porque era vizinho e amigo de longa data da família Kardec, jamais a Leymarie.

Delanne viajava bastante, esteve nas cidades onde existiam centros de divulgação espírita como, Lyon, Bordeaux, Bruxelas entre outros locais em que visitava simultânea havia com certa frequência os centros espíritas. Concebemos que Delanne tenha sido bloqueado "politicamente" por Leymarie. Sim, talvez o invigilante Leymarie tenha articulado nos “bastidores” com Boudet a fim de “puxar o tapete” do pai de Gabriel Delanne.

Mas, quem era Leymarie? Era um praticante de Teosofia de Blavatsky, defendia as alucinações de Roustaing [3] e era apaixonado pela maçonaria.

Importa mencionar que quando Kardec desencarnou Gabriel Delanne tinha apenas 12 anos de idade enquanto que Léon Denis tinha 23 anos e serviria o exército na guerra franco-prussiana de 1870 e, apesar de já espírita, Denis ainda não estava satisfatoriamente integrado ao Movimento Espírita. Desta forma, ambos, Delanne e Denis, passaram a exercer maior influência no Movimento Espírita somente por volta da década 1890 , e tiveram sua maior projeção a partir de 1900.

A França enfrentou três grandes guerras (a “franco-prussiana” de 1870 e as duas grandes guerras mundiais), o que, sem dúvida, dificultou muito a propagação do Espiritismo. Na Primeira Guerra Mundial muitos grupos e sociedades espíritas tiveram que ser fechados. Sob esse clima houve brutal sufocação do Movimento Espírita em francês.

Como se não bastasse, no contexto dos idos de 1910, podemos pontuar as propostas filosóficas materialistas, abrindo espaço para o niilismo, existencialismo, pessimismo e ceticismo extremos, enfim - os embates ideológicos. Portanto, as guerras foram categóricas para o declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, mas antes delas, como vimos, a liderança do movimento sofreu tragicamente, principalmente pela falta de lucidez doutrinária, especialmente veiculada pela "Revue Spirite", sob a gerência de Leymarie.

Repetimos que Leymarie foi o protagonista para o desmoronamento doutrinário, por conseguinte muitos espíritas franceses perderam o rumo sob o guante do misticismo imponderado. Para ilustrar, notemos o infame “Processo dos Espíritas”, resultante das reais fraudes reproduzidas por fotógrafos de má fé e publicadas de maneira descuidada por Leymarie na Revue Spirite. Naturalmente esse episódio foi traumático de consequências gravíssimas, ferindo mortalmente o moribundo Movimento Espírita francês.

Nesse caótico quadro de declínio doutrinário há quem assinale outro aspecto especial. Trata-se da questão das excessivas pesquisas científicas em torno dos fenômenos mediúnicos. Havia prioridades nas experimentações laboratoriais com os médiuns. O próprio Gabriel Delanne seguiu esse caminho de pesquisa. Não obstante,  tenha se declarado “arrependido”, numa entrevista concedida ao brasileiro Canuto Abreu, afirmando que a experiência científica não teria sido a sua melhor opção para o revigoramento do Movimento Espírita.

Gabriel Delanne, um depoimento de além-tumba
Sobre isso, André Luiz entrevistou o Delanne no além, notemos: Muitos amigos na Terra são de parecer que os Mensageiros da Espiritualidade Superior deveriam patrocinar mais amplas manifestações da mediunidade de efeitos físicos para benefício dos homens, como sejam materializações e vozes diretas. Que pensa a respeito?

Delanne (Espírito) - “Creio que a mediunidade de efeitos físicos serve à convicção, mas não adianta ao serviço indispensável da renovação espiritual. Os Espíritos Superiores agem acertadamente em lhe podando os surtos e as motivações, para que os homens, nossos irmãos, despertem à luz da Doutrina Espírita, entregando a consciência ao esforço do aprimoramento moral. Devemos estimular os estudos em torno da matéria e da reencarnação, analisar o reino maravilhoso da mente e situar no exercício da mediunidade as obras da fraternidade, da orientação, do consolo e do alívio às múltiplas enfermidades das criaturas terrestres”. [4]

Nos primórdios do século XX houve um surto de crescimento do Movimento Espírita na França até meados da década de 1920, esmaecendo de forma célere quando Denis, Delanne, Gustave Geley e Camille Flammarion desencarnam. Subsequentemente, em 1935, desencarnaria o "Pai da Metapsíquica" e simpatizante do Espiritismo Charles Richet, tudo isso aconteceu momentos antes da Segunda Guerra Mundial, quando da ocupação nazista na França por quase um lustro.

Retornemos mais uma vez a Leymarie. Ele fundou a "Librairie Leymarie Édite-URS" e a dirigiu até 1903, e, com o seu desencarne, o espólio foi herdado (novamente em família!) pela viúva Marina Leymarie que assumiu o comando, e, posteriormente, por seu filho, Paul Leymarie. Este, após um breve espaço de tempo em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, “dono” absoluto dos destinos do Espiritismo até 1914, quando, em função da Primeira Guerra Mundial, abandonou tudo. O que não foi de todo uma catástrofe, pois o Paul Leymarie comercializava até “bolas de cristal” [isso mesmo! “bolas de cristal”] pela Revue Spirite.[5]

Meyer, um mecenas francês
Com a liquidação da "Librairie Spirite", continuou a editoração das obras de Allan Kardec, fazendo do prédio da "Librairie Leymarie" sede da redação da "Revue Spirite", até a fundação da "Maison des Spirites", por Jean Meyer, inaugurada em 25 de novembro de 1923. Antes mesmo de terminar a Primeira Guerra, em 1916, o Jean Meyer, um rico empresário francês, assumiu o combalido Movimento Espírita francês, lembrando que nessa conjuntura ainda estavam encarnados Léon Denis e Gabriel Delanne, que embora sumidades intelectuais e grandes referências doutrinárias; mas “cá para nós”, alguém tinha que cuidar dos “negócios” do movimento.

No contexto Meyer destinou a sua fortuna pela causa do Espiritismo. Ficou com os direitos autorais da Revue Spirite. Criou a Casa dos Espíritas (“Maison des Spirites”), para onde levou o precário material que restou dos documentos e objetos pessoais de Kardec. Este mesmo mecenas fundou o “Instituto de Metapsíquica”, sob o comando inicial do Gustave Geley, e onde foi gerado o “Tratado de Metapsíquica”. O curioso é que Charles Richet dizia que o “Espiritismo era inimigo da ciência”.

La Revue Spirite reunia, nesse tempo, as mais destacadas personalidades do Espiritismo: Gabriel Delanne, Leon Denis, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano, A. Bénezech, Marcel Laurent, M. Cassiopée, General Abaut, Dr. Gustave Geley, Marcel Semezies, Pascal y Matilde Forthuny, Louis Gastin, Henri Sausse, Paul Bodier, Sir. Arthur Conan Doyle, Santoliquido, Rocco, León Chevreuil, Hubert Forestier e outros. Em verdade, Meyer foi uma espécie de “dono” do movimento espírita francês até sua desencarnação em 1931. [6]

Durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu uma desmontagem quase integral do Movimento Espírita francês. Os nazistas ao ocuparem Paris saquearam tudo inclusive Maison Spirites e confiscaram livros, documentos de pesquisa, e outros objetos importantes da própria história do Espiritismo na França.

Que nos diz acerca do Espiritismo, na França? Esquadrinhou André Luiz Ao Espírito Gabriel Delanne. “ Não nos é lícito dizer haja alcançado o nível ideal”.[7] Redarguiu Delanne acrescentando que “legiões de companheiros da obra de Allan Kardec reencarnaram, não só na França, mas igualmente em outros países, notadamente no Brasil, para a sustentação do edifício kardequiano”. [8]

Transposição do movimento espírita mundial
Conjectura-se aqui e algures sobre o translado do Espiritismo para o Brasil. Temos certeza que a transposição da direção do Movimento Espírita mundial, da França para o Brasil, sobreveio após a desencarnação de Léon Denis, no período entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930, portanto, coincidindo com o início da missão mediúnica de Francisco Cândido Xavier.

Desta forma, podemos questionar o desempenho de Bezerra de Menezes como justificadora para tal translado. Até porque, não é difícil comprovar nesse contexto, pois quando Bezerra desencarnou em 1900 a atuação verdadeiramente apostólica de Gabriel Delanne e Léon Denis manteve-se viva por muitas décadas, inclusive durante e após a primeira guerra mundial. [9]

O Movimento Espírita francês voltou a se recuperar com frouxidão por volta dos anos de 1950 e 1960 em razão do regresso à França de alguns cidadãos que residiam no Norte da África (Argélia, Marrocos) e começaram a retornar para a terra de Kardec arriscando remontar o Movimento Espírita.

Encetaram o projeto, todavia com extrema dificuldade, em função do cenário deixado pela Segunda Guerra. Porém, desataque-se que naquela situação começou a haver uma nova fase de interesses e buscas fenomênicas no campo da parapsicologia e da metafísica; por fim, a própria Revue Spirite foi retomada por algumas lideranças a exemplo de Hubert Forestier e André Dumas.

Sepultamento da Revue Spirite
Na década de 1960, Hubert Forestier assume a Revue Spirite e torna-se proprietário que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Forestier desencarna em 1971, deixando o Movimento Espírita francês na penúria. Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. [10] O resto – muito pouco: o nome da Revue e da Societé – ficou nas mãos do Dumas. [11]

André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestígio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da “Revue Spirite” para “Renaitre 2000”, e a Societé para uma tal “sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência”, colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o “espiritismo francês”. [12]

Na verdade, Dumas foi escritor e dirigente espírita francês, presidente da União Espírita Francesa (UEF) e diretor da Revista Espírita na década de 1970. Por muitos anos administrou o legado de Kardec e seus seguidores. No entanto, é mais lembrado (no Brasil) pela mudança do nome desta tradicional instituição espírita, em 1976: União Científica Francofônica para a Investigação Psíquica e o Estudo da Sobrevivência da Alma (USFIPES), em vez de UEF.

Nesse mesmo ano, para desagrado de alguns espíritas brasileiros, a tradicional revista fundada por Kardec deixa de circular. Em seu lugar, Dumas, como citamos acima, lança um periódico denominado o Renaître 2000. Segundo ele, as palavras espírita e Espiritismo se descaracterizaram em seu verdadeiro significado, vinculando-se ao misticismo (roustanguista), ao religiosismo. Por isso a mudança.

O resultado foi a completa marginalização de Dumas e a confusão jurídica com a União Espírita Francesa e Francofônica, fundada por Roger Perez em 1985, pelos direitos da Revista Espírita. Dois anos depois a instituição obtém sentença judicial favorável a Perez e a Revue volta a circular novamente após 12 anos de interrupção.

Apesar de ser lembrado como uma espécie de traidor, um “Judas” da causa espírita, Dumas foi um dirigente e um intelectual espírita importante na história do Espiritismo francês. Sua visão, laica e filosófica, destoava da grande maioria dos espíritas, notadamente os brasileiros, afeitos a concepções religiosas e sectárias, influenciados em demasia pelos cânones roustanguistas da Feb.

Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se “comunicou” com o grupo dele, o “Cercle Spirite Allan Kardec”, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. (sic) Ele o tenta até hoje. [13]

Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias africanas, resolveu, certamente com o patrocínio da Feb, retomar as coisas. Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela “Federação Espírita Francesa e Francófona” (já extinta), da qual foi fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI – Conselho Espírita Internacional.

Certamente com Roger Perez houve uma breve intensificação do Movimento Espírita francês, porém, a bem da verdade, nunca se recuperou, pelo menos em Paris. Sabemos que hoje há diferentes núcleos espíritas no interior da França, mas evidentemente sem as características daquelas propostas por Allan Kardec.

Propagação espírita de pessoa a pessoa, de consciência a consciência
O Espírito Delanne não acredita que a Europa (especialmente a França) retomará a direção do movimento espírita no futuro, pois o Velho Continente assemelha-se, atualmente, a vasto campo de guerra ideológica, que está muito longe de terminar. Para o Benfeitor a divulgação espírita terá de efetuar-se de pessoa a pessoa, de consciência a consciência. A verdade a ninguém atinge através da compulsão. A verdade para a alma é semelhante à alfabetização para o cérebro. Um sábio por mais sábio não consegue aprender a ler por nós. (Grifei)

Talvez esse processo de propaganda espírita seja moroso demais para a Humanidade, mas, segundo Delanne, uma obra-prima de arte exige, por vezes, existências e existências para o artista que persegue a condição do gênio. Como acreditar que o esclarecimento ou o aprimoramento do espírito imortal se faça tão-só por afirmações labiais de alguns dias? [14]
Seja no Brasil, seja noutros países, cremos que a pujança da Doutrina dos Espíritos não advirá por meio de um “Espiritismo Oficial”, hierarquizado, elitista, exorbitantemente místico e mercantilista, porém na propagação paulatina da Terceira Revelação de pessoa a pessoa, de consciência a consciência, de ombro a ombro, sem as grilhetas burocráticas dos institutos oficiais de “unificação”, que na Terra e especialmente no Brasil vivem e revivem os fragorosos vendavais intransigentes do poder curial.


Notas e Referências bibliográficas:

[1] CALSONE Adriano. Madame Kardec, SP: Viva Luz Editora, 2017 “Eis que em 18 de outubro de 1873, a Assembleia Geral Anual concordou com a decisão de substituir o polêmico nome, Sociedade Anônima – criação da viúva Kardec –, para o extenso, Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec, anônima e capital variável. Com a nova recriação, sugerida novamente por Amélie, a mesma deixava claro que tudo deveria convergir para a divulgação, propagação e continuação das obras espíritas do marido.”
[2] Idem
[3] P.G. Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente no Rio de Janeiro onde esteve exilado em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.
[4] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970
[5] DONHA João. O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado? Disponível em https://palavraluz.wordpress.com/2016/07/17/arquivokardec/ acessado em 16/02/2017
[6] Disponível no portal “AUTORES ESPÍRITAS CLÁSSICOS” http://www.autoresespiritasclassicos.com/autores%20espiritas%20classicos%20%20diversos/Jean%20Meyer/Jean%20Meyer.htm ACESSO 17/02/2017
[7] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970
[8] Idem
[9] MARMO Leonardo Moreira. “Os Problemas enfrentados pelo Movimento Espírita após a morte de Allan Kardec e as atuações de Delanne e Denis”, disponível em http://paespirita.blogspot.com.br/2017/02/os-problemas-enfrentados-pelo-movimento.html avessado em 17/02/2017
[10] Domínio público, no Direito da Propriedade Intelectual, é o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação (livros, artigos, obras musicais, invenções e outros) de livre uso comercial, porque não submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa física ou jurídica.
[11] DONHA João. O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado? Disponível em https://palavraluz.wordpress.com/2016/07/17/arquivokardec/ acessado em 16/02/2017
[12] Idem
[13] Idem
[14] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970

ENDEREÇO ELETRÔNICO CONSULTADO:

https://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com.br/2017/02/movimentoespirita-pos-kardec-episodios.html

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

AS PROVAS DA ADULTERAÇÃO DO LIVRO A GÊNESE E A REPERCUSSÃO PELO MUNDO - POR PAULO HENRIQUE DE FIGUEIREDO

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Fonte da imagem: http://edicoesleondenis.com/produto/a-genese/



            Neste vídeo, o pesquisador espírita Paulo Henrique de Figueiredo apresenta provas da adulteração do livro A Gênese, de Allan Kardec.



ENDEREÇO ELETRÔNICO CONSULTADO:

https://www.youtube.com/watch?v=-5KC68PJjPM

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O DR GARY SCHWARTZ FALA DE SUAS PESQUISAS SOBRE VIDA APÓS A MORTE


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Fonte da imagem: http://www.semprequestione.com/2015/11/cientista-prova-que-existe-vida-apos.html


Fábio José Lourenço Bezerra

Abaixo, postamos o vídeo de uma palestra proferida pelo Dr.Gary Schwartz, professor de psicologia, medicina, neurologia, psiquiatria e cirurgia norte-americano. Ele fala a respeito de suas pesquisas sobre a vida após a morte. Nela, de uma forma simples, o Dr. Gary explica como chegou à conclusão de que Espíritos existem, apesar de, antes de suas pesquisas, ser materialista convicto. A palestra ocorreu durante o 4º Congresso Médico Espírita dos Estados Unidos.



ENDEREÇO ELETRÔNICO CONSULTADO:






quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A ADULTERAÇÃO DO LIVRO A GÊNESE, DE ALLAN KARDEC - ENTREVISTA COM PAULO HENRIQUE DE FIGUEIREDO

O pesquisador espírita Paulo Henrique de Figueiredo concedeu uma entrevista à TV Mundo Maior em 15 de janeiro de 2018, dando detalhes de como foi a pesquisa que provou, através de documentos, a adulteração que foi feita no livro A Gênese, de Allan Kardec.





ENDEREÇO ELETRÔNICO DO VÍDEO:

https://www.youtube.com/watch?v=0kKqIHn7DFk&t=2413s

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

INÉDITO: VÍDEO REVELA A ADULTERAÇÃO DA OBRA DE KARDEC ! - POR PAULO HENRIQUE DE FIGUEIREDO

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Fonte da imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_G%C3%AAnese



Acaba de ser divulgado um vídeo depoimento da pesquisadora e diplomata brasileira Simoni Privato, autora da obra El Legado de Allan Kardec, com cenas de sua pesquisa em documentos na Biblioteca Nacional da França para definitivamente provar que a versão mais divulgada da obra A Gênese de Allan Kardec foi adulterada criminosamente, privando os espíritas de conhecer a mensagem original da Doutrina Espírita.

Tudo ocorreu quando da publicação da quinta edição da obra, em 1872, pelo responsável em dar continuidade à publicação e divulgação do Espiritismo, Pierre Leymarie. Ele passou a oferecer aos leitores, sem dar destaque algum na Revista Espírita, espíritas uma versão de A Gênese revista, corrigida e ampliada pelo autor. Todos os dezoito capítulos foram modificados em dezenas de itens. Mas não foram apenas mudanças gramaticais, foi mesmo uma reviravolta quanto aos conceitos doutrinários.

Pela dedicação de Leymarie, as traduções autorizadas, as novas edições, toda a continuidade da difusão de A Gênese desde três anos apenas do passamento de Allan Kardec passou a ser feita a partir da edição corrigida e ampliada.

Em 1884, e Simoni descreve esse fato em sua obra, o pesquisador espírita Henri Sausse, amigo de Leon Denis e Gabriel Delanne, publicou um artigo bombástico: Uma infâmia! Nele denuncia que A Gênese, em verdade, foi adulterada! Não teria sido iniciativa de Kardec, mas uma falsificação criminosa.

Questionada pelo presidente da Confederación Espiritista Argentina, Gustavo Martinéz, ele próprio tradutor para o espanhol das obras de Kardec, Simoni Privato passou a investigar os fatos, buscando provas, analisando os argumentos, com isenção, sem estabelecer nenhuma hipótese inicial.  Encontrou provas jurídicas, documentos registrados na Biblioteca Nacional da França que demonstram a adulteração na quinta edição. São legítimas apenas as quatro primeiras, idênticas, publicadas exatamente como o autor a concebeu!

Simoni Privato: Hoje passamos a difundir um vídeo, com cenas filmadas em Paris, sobre a questão do conteúdo definitivo. É um vídeo muito resumido, que procura esclarecer e sensibilizar. No Youtube, está com legendas em português:



https://www.youtube.com/watch?v=7xEgZYqqlNQ

Neste vídeo de 15 minutos, que vale a pena assistir, Simoni narra sua pesquisa na França e seu emocionante contato com o exemplar depositado por Kardec de A Gênese original, documento que estava com acesso público interditado, por ser um documento judicial. Ela venceu as barreiras, e está aberto historicamente um caminho para restituir a verdade, colocar no lugar as palavras originais publicadas por Allan Kardec, justamente 150 anos depois. Não acredito, definitivamente, em acaso ou coincidências!

A obra Le Legado de Allan Kardec será lançada em português no primeiro semestre de 2018!

(Por Paulo Henrique de Figueiredo – Revolução Espírita)

ENDEREÇO ELETRÔNICO CONSULTADO:

http://revolucaoespirita.com.br/inedito-video/

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

SUPERIORIDADE DA NATUREZA DE JESUS - POR ALLAN KARDEC

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Fonte da imagem: https://www.esbocandoideias.com/2017/05/melquisedeque-era-cristo-pre-encarnado.html


          No Capítulo XV da obra "A Gênese", Allan Kardec trata da superioridade da natureza de Jesus:

1. Os fatos que o Evangelho relata e que foram até hoje considerados milagrosos pertencem, na sua maioria, à ordem dos fenômenos psíquicos, isto é, dos que têm como causa primária as faculdades e os atributos da alma. Confrontando-os com os que ficaram descritos e explicados no capítulo precedente, reconhecer-se-á sem dificuldade que há entre eles identidade de causa e de efeito. A História registra outros análogos, em todos os tempos e no seio de todos os povos, pela razão de que, desde que há almas encarnadas e desencarnadas, os mesmos efeitos forçosamente se produziram. Pode-se, é certo, contestar, no que concerne a este ponto, a veracidade da História; mas, hoje, eles se produzem às nossas vistas e, por assim dizer, à vontade e por indivíduos que nada têm de excepcionais. O só fato da reprodução de um fenômeno, em condições idênticas, basta para provar que ele é possível e se acha submetido a uma lei, não sendo, portanto, miraculoso.

O princípio dos fenômenos psíquicos repousa, como já vimos, nas propriedades do fluido perispiritual, que constitui o agente magnético; nas manifestações da vida espiritual durante a vida corpórea e depois
da morte; e, finalmente, no estado constitutivo dos Espíritos e no papel que eles desempenham como força ativa da natureza. Conhecidos estes elementos e comprovados os seus efeitos, tem-se, como consequência, de admitir a possibilidade de certos fatos que eram rejeitados enquanto se lhes atribuía uma origem sobrenatural.

2. Sem nada prejulgar quanto à natureza do Cristo, natureza cujo exame não entra no quadro desta obra, considerando-o apenas um Espírito superior, não podemos deixar de reconhecê-lo um dos de ordem mais elevada e colocado, por suas virtudes, muitíssimo acima da humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade somente a seus mensageiros diretos confia, para cumprimento de seus desígnios. Mesmo sem supor que ele fosse o próprio Deus, mas unicamente um enviado de Deus para transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um profeta, porquanto seria um Messias divino.

Como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível. A sua superioridade com relação aos homens não derivava das qualidades particulares do seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava de modo absoluto a matéria e da do seu perispírito, tirado da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres (cap. XIV, item 9). Sua alma, provavelmente, não se achava presa ao corpo, senão pelos laços estritamente indispensáveis. Constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla vista, não só permanente, como de excepcional penetração e superior de muito à que de ordinário possuem os homens comuns. O mesmo
havia de dar-se, nele, com relação a todos os fenômenos que dependem dos fluidos perispirituais ou psíquicos. A qualidade desses fluidos lhe conferia imensa forca magnética, secundada pelo incessante desejo de fazer o bem.

Agiria como médium nas curas que operava? Poder-se-á considerá-lo poderoso médium curador? Não, porquanto o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados e o Cristo não precisava de assistência, pois que era ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal, como o podem fazer, em certos casos, os encarnados, na medida de suas forças. Que Espírito, ao demais, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de os transmitir? Se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

KARDEC, Allan. A Gênese: Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. FEB.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

POR QUE O ESPIRITISMO NÃO ESTÁ NA CIÊNCIA MAINSTREAM ? - POR DORA INCONTRI

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Fonte da imagem: https://www.slideshare.net/RoseMz/roteiro-2-espiritismo-ou-doutrina-espirita

Publicado em 21 de outubro de 2017 por Dora Incontri

Para responder plenamente a esta questão, precisaríamos de muito mais de que um texto de blog. Fiz isso em parte na minha tese de doutorado, na USP, sobre Pedagogia Espírita (depois publicada como Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes), mas como nem todos leram esse trabalho e como recentemente esse debate veio à tona por causa de um vídeo de três minutos de Pondé, onde ele faz uma rápida, superficial e descolada apreciação do espiritismo, resolvi escrever algo a respeito.

O que primeiro deve ser dito é que a possível consistência filosófica e científica do espiritismo ficou embaçada pelo movimento religioso que se criou no Brasil, bastante afastado da racionalidade e do método de análise crítica que propunha Kardec, na abordagem dos fenômenos mediúnicos. É preciso um esforço de escavação do pensamento espírita original, de uma leitura bem feita dos que sucederam Kardec, com pesquisas sérias no final do século XIX e início do século XX e depois acompanharmos o que tem sido intermitentemente pesquisado a partir da segunda metade do século XX até nossos dias – para nos pronunciarmos a respeito da questão proposta.

Não, Kardec não era um autor positivista à moda de Augusto Comte. Em nenhum sentido. O positivismo do século XIX era um cientificismo, que pretendia abarcar toda a realidade pela ciência, partindo aliás de pressupostos filosóficos materialistas. Demonstrei em minha tese que Kardec justamente faz a crítica desse discurso cientificista e reducionista e sua concepção de ciência se aproxima muito mais de teóricos contemporâneos como Thomas Kuhn, por exemplo. Isso porque ele reconhecia que não há ciência sem articulação filosófica, como vários filósofos da ciência apontariam no século XX. Ele também não é positivista, porque o positivismo queria a morte da filosofia, a morte da ideia de transcendência humana e Augusto Comte jamais fez uma pesquisa empírica. Ele era um teórico. Inventou uma narrativa cientificista e uma religião sem espiritualidade e sem Deus, de que ele era o supremo sacerdote. Uma figura excêntrica e considerada medíocre pelos pensadores contemporâneos. A tentativa, portanto, de classificar o espiritismo de positivista é uma simplificação ingênua ou de má fé, porque se trata de colocar Kardec nesse rol pretensiosamente pseudocientífico de que Comte é um dos representantes mais conhecidos.

O que Kardec propôs, e realizou, foi uma nova abordagem metodológica para compreender fenômenos que sempre estiveram presentes na história da humanidade: percepções extra-sensoriais, comunicações de pessoas que já haviam morrido e lembranças de vidas passadas. Já na Grécia antiga temos diversas manifestações desse gênero, como as recordações que Pitágoras e Sócrates tinham de outras existências, como a ideia de reencarnação em Platão ou ainda histórias de visitas espirituais nos clássicos da literatura grega, como Ilíada e Odisseia. Isso apenas para citar os gregos, sem mencionar toda a história do pensamento humano, no Oriente e no Ocidente. Segundo uma minuciosa pesquisa feita pelo antropólogo de Sri Lanka Gananath Obeyesekere, Imagining Karma: Ethical Transformation in Amerindian, Buddhist, and Greek Rebirth, a mais universal das ideias a respeito da vida pós-morte é a reencarnação e ela aparece em todas as culturas dos cinco continentes, sem que tenha havido influências e trocas entre elas.

A universalidade de uma ideia não atesta a sua verdade, mas pelo menos nos chama a atenção para uma análise respeitosa. A questão é que além dessa universalidade e antiguidade tanto da ideia da reencarnação, como da comunicação com os espíritos – ambas atestando a imortalidade da alma – desde o tempo de Kardec até hoje, há pesquisadores comprometidos com métodos rigorosos de análise dos dados, que vêm se debruçando sobre isso. E depois de Kardec, a maioria dos que pesquisaram não estavam ligados e às vezes nem tinham conhecimento do espiritismo, muito menos desse espiritismo religioso e acrítico que se estabeleceu no movimento brasileiro.

No meu ponto de vista, a mais consistente pesquisa que vem confirmando a teoria da reencarnação, proposta por Kardec, é a de Ian Stevenson e de seus associados e sucessores. Mais de 2500 casos de recordações espontâneas de crianças a respeito de supostas vidas passadas, observadas com metodologia bastante rigorosa, incluindo os casos com marcas de nascença, não explicáveis pela hereditariedade, mas que correspondem exatamente à causa da morte da personalidade anterior, que a criança diz ter sido, cuja comprovação é encontrada no atestado de óbito e na autópsia da dita personalidade…

Fenômenos de quase-morte, de poltergeist, de telepatia, de clarividência… tudo já foi objeto de pesquisas sérias com resultados de evidências bastante promissoras, que nos levam às mesmas conclusões que Kardec, no século XIX, que tinha suas limitações do momento histórico, para uma pesquisa com o rigor que podemos desenvolver hoje.

Eu mesma participei, como médium analisada, de uma interessante pesquisa liderada por Julio Peres, doutor em Neurociências, pela USP, Alexander Moreira-Almeida, doutor em Medicina pela USP e por Andrew Newberg, doutor e pesquisador norte-americano especializado em neuroimagem, na Universidade de Pensilvania. (Ver artigo publicado a respeito).

Por que mesmo então o espiritismo não está na ciência mainstream? Ora, porque essas evidências ferem paradigmas muito arraigados, então é preciso negá-las, afastá-las, fechar os olhos e ridicularizá-las. Elas ferem tanto o paradigma materialista reinante nas universidades, que é um paradigma puramente ideológico, como fere o fundamentalismo das religiões institucionais, que ficam apavoradas com o desvendar da vida pós-morte como algo natural, o que lhes tiraria completamente a função de mediadoras, que controlam o pedágio para o céu.

A ideia da reencarnação implica numa moralidade que os materialistas não querem aceitar, no seu relativismo ético e implica numa emancipação do indivíduo como dono espiritual de si mesmo, que as religiões institucionais tampouco querem integrar em sua visão do Além.

Além disso, sabemos hoje – Noam Chomski e outros denunciam isso de forma bastante convincente – o quanto a ciência atende a interesses econômicos, militaristas, de facções. Então nem sempre (ou raramente?) há isenção na chamada ciência mainstream. Foi essa aliás, uma das boas contribuições que Thomas Kuhn deu à filosofia da ciência, mostrando que os paradigmas de uma determinada comunidade científica não são compostos apenas de evidências, mas de visões de mundo, que são sociais, históricas, subjetivas…

Os espíritas brasileiros, com seu discurso fechado, em sua maioria com uma visão estreita, também não contribuíram para o espiritismo sair do seu gueto e alcançar a universidade – mas esse é um fato que está sendo revertido, porque pesquisadores sérios como os citados acima e outros, que fazem parte de grupos de pesquisa no Brasil e lá fora, vieram do movimento espírita, mas se desfizeram das amarras meramente religiosas e estão se dedicando a abrir novas trilhas de abordagem metodológica de fenômenos, que evidenciam que sobrevivemos à morte e que o Espírito é imortal. Eles dão as mãos a outros pesquisadores, que não vieram da comunidade espírita, mas estão também comprometidos com essa descoberta do Espírito. A verdade não é espírita, budista, católica ou ateia: ela é apenas a verdade, objetiva, palpável e pode oferecer evidências, se quisermos vê-las.

ENDEREÇO ELETRÔNICO CONSULTADO:

https://blogabpe.org/2017/10/21/por-que-o-espiritismo-nao-esta-na-ciencia-mainstream/#more-1474